digital life

Há clientes e clientes

Assim como há pessoas de tudo que é jeito - legais e antipáticas, arrogantes e amigas, gente boa e gente ruim - também tem clientes legais e clientes insuportáveis. É óbvio que quando a pessoa não é boa na vida em geral, não vai ser também agradável no trabalho. E, numa relação cliente-fornecedor, uma pessoa que já não é flor que se cheire, e ainda por cima está assinando o cheque, vai ser provavelmente um pesadelo em forma de reuniões e aprovações.

Eu já tive experiências terríveis com clientes insuportáveis. Gente que eu não gostaria nem de cruzar na calçada. Felizmente, hoje em dia tenho o prazer de trabalhar com algumas pessoas bem legais, que encaram o projeto de forma colaborativa, que não esperam que a gente simplesmente execute ordens, que gostam de debater, enriquecendo o processo e o resultado. Que entendem, enfim, que um site não é que nem um produto, que se encomenda e se especifica e se recebe pronto. Mas que é sim um verdadeiro retrato da instituição e de como ela encara a comunicação. No final, o site não tem a cara da agência, apesar de ser a agência que planeja, desenha, sugere. O resultado de um projeto de ambiente digital é tão bom quanto são as pessoas da empresa.

Por isso, cliente bom é pessoa do bem.

 

Highlights imediatos do SXSW Interactive

  • Protótipos dos guris do Google. É pra aprender código, não irritar os desenvolvedores simulando coisas que não podem ser programadas. Não gaste seu tempo fazendo wireframe de alta fidelidade, vá do sketch no papel para um protótipo muito perto da coisa real (de preferência em HTML, com Java script, e print screens de telas de verdade – pode ser de outros sites, se você está começando do zero). Faça isso para vender sua idéia internamente e conseguir apoio para construir. Eles prototipam em Fireworks, que abre direto no browser. O webdesigner não deve apenas colorir o wireframe... (como já sabemos). Visual design, UX design, IA should be together.
  • A arte das interações sedutoras, painel do Stephen Anderson. Já iniciou o painel mostrando exemplos de coisas boas: iLike, Dopplr. Explicou porque são boas. Os motivos pelos quais nosso cérebro identifica coisas como boas experiências. No final deu de brinde uma edição preview dos cartões de Mental Notes que está lançando. A dica final: identificar experiências agradáveis (“that was fun!”). Pensar no que fez a experiência ser legal (qual dos “ativadores cerebrais” estava em ação). Utilizar as cartas para fazer o exercício. Mais aqui: http://www.getmentalnotes.com
  • Nina Hartley. Atriz pornô há 26 anos, fofa, articuladíssima, inteligente. Educadora sexual e social networker. Está lançando uma rede social dirigida à educação sexual, SexWise. Porque “sex should be fun!”. E ela quer ajudar as pessoas a terem diversão e felicidade  através do sexo, dos relacionamentos saudáveis, de um pensamento não preconceituoso e da curiosidade por si mesmo e pelos outros. Longa vida a Nina Hartley. 
  • Clay Shirky. Não prestei muita atenção, confesso. Mas gostei disso: “We are moving from a world where we can do big things for money and small things for love, to a world where we can do big things for Love”. I hope so. Esses dias eu tava pensando que havia desistido de fazer o bem pra ganhar dinheiros. Mas que talvez eu devesse ir fazer o bem mesmo que fosse para ganhar menos dinheiros. Porque afinal agora eu não faço o bem e nem faço tantos dinheiros. Mas vai ser melhor fazer o bem ganhando bem.
  • Estratégia de conteúdo com a Kristina Halvorson também estava muito legal. “Conteúdo tem que ser pensado do ponto de vista do ultimate goal do business e do que o usuário esta procurando”. Comprei o livro dela e vou estudar mais.
  • A danah boyd falou, falou, falou sobre privacidade, mostrou um site interessante - http://pleaserobme.com/ - eu escrevi bastante sobre ela para a materia da Folha – mas pessoalmente não me tocou.
  • Recriando seu próprio método de IA. “Um dos maiores problemas que UX designers tem é que não somos creative enough”. I can totally relate to that ;)
    Pesquisa é uma ferramenta, mas pesquisa sozinha não deve criar design. O que tem que ser: informed guesses e data-inspired design.
  • E um ótimo conselho de Lisa Kamm & Alex Cook, do Google (no painel Long distance UX): fazer frequentes “standup meetings”, de 15 minutos no máximo, com todo mundo (criaçnao, desenvolvedores etc). Meio como uma reunião de status, pra todo mundo saber o que todos andam fazendo, no que cada um esta trabalhando. Parecido com Scrum. “We really want to avoid the UX waterfall. Para isso, o ideal é estar todo mundo no mesma sala, mas isso nem sempre é possível”. Quando não é possível, utilizar a tecnologia e muita comunicação para minimizar a chance de desentendimento.

Agora que o Google dominou o mundo, ainda precisamos de menus hierárquicos?

Esses dias a questão pulou da boca de um entrevistado: "Depois que surgiu o Google, a gente se acostumou a simplesmente digitar uma palavra, apertar ok e encontrar tudo sobre o assunto". 

Em outras palavras, esse usuário prioriza a busca em detrimento da navegação. Não tenho dados sobre quantas pessoas preferem buscar ao invés de navegar. Mas, baseado no que vejo em testes de usabilidade, entrevistas e observação contextual - além da vida diária nesse lugar chamado internet -, acredito que as pessoas estão cada vez buscando mais. Afinal, como bem apontou o entrevistado, a gente se acostumou com o Google.

Então, por que nós arquitetos de informação damos tanta importância à estruturação de menus hierárquicos? Não conseguimos começar nada antes de fazer um sitemap. Esquecemos que mesmo a home page às vezes nem é vista pelos usuários que chegam direto a alguma página interna a partir de uma lista de resultados de busca.

Menus hierárquicos e taxonomias são importantes, é claro, e não me parece que vão deixar de ser. A informação precisa "morar" em algum lugar. Além disso, certos usuários não sabem o que querem, e não saberão que palavra digitar numa interface de busca. Não saberão como achar um conteúdo a não ser que este conteúdo lhes seja oferecido. Os conteúdos precisam ser apresentados em uma vitrine - na home page e/ou num menu hierárquico.

Mas as coisas importantes também têm uma estrutura hierárquica. Então, vamos primeiro às mais importantes - que talvez seja estruturar a informação/conteúdo pensando em formas de acesso nem sempre lineares e organizadas - e sim diferenciadas, caóticas, bagunçadas. Como a vida.

No Summit de 2008, na pré-conferência"Information Architecture 3.0", Peter Morville disse que a arquitetura de informação do futuro contemplaria a habilidade criar uma camada de estrutura para o conteúdo e a classificação criados pelo usuário. Ou seja, deixar o usuário criar conteúdo e classificações ("be messy, experiment the whole data thing"), e depois organizar isso e otimizar as formas de apresentação e de busca ("help people refine what they are doing").

Se o trabalho do AI será fortemente centrado em classificar e indexar o conteúdo de maneira robusta e não necessariamente hierárquica, mas olhando as relações entre os conteúdos, as palavras-chave e os objetos, realmente o que fazemos está mudando. Já não é mais desenhar caixinhas em wireframes - e talvez daqui a pouco também não seja colocar conteúdos dentro de (outras) caixinhas e etiquetá-las.

Nós somos os caras que planejam os ambientes em que as pessoas vão se relacionar e mudar sua cultura. Pense nisso.

 

Aniversário do blog

Este blog foi criado no ano passado, para que eu pudesse escrever sobre minha primeira participação em um evento internacional (IA Summit de Miami). O primeiro post foi no dia 27 de março de 2008. Typewriter fez um ano bem comemorado, com o segundo IA Summit e o SXSW (espero que o primeiro de vários). Gostaria de agradecer aos leitores, colegas arquitetos de informação que têm passado por aqui, a todos os que deixam comentários instigantes que me estimulam a continuar escrevendo, aos amigos da vida física me lêem e não entendem nada, mas mesmo assim acham fofo, aos que recomendam no Twitter, aos que linkam posts. Obrigada, gente, de coração. Foi legal e diferente ter um blog assim, depois de tantos anos de blogagem extremamente "pessoal". Que venham novos eventos, novas idéias, novos projetos, novos leitores e amigos!

 

"It's going to take another word for 'friendship', because Facebook killed it"

Baratunde Thurston é um cara realmente engraçado. Além de ser um dos editores do The Onion, é uma geek celebrity.

Será que algum dia vamos conseguir voltar a prestar atenção em apenas uma coisa de cada vez?

A massa conectada no SXSW não deixa dúvidas. Todos estão, o tempo inteiro, em meta-vivências. Sempre com traquitanas ligadas: notebooks (Apple é maioria absoluta), iphones e os mais variados aplicativos para o Twitter. Estamos ao mesmo tempo aqui, fisicamente, e projetados, através dos objetos tecnológicos, a variados "lugares" não físicos. Extensões do nosso corpo mental.

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