A segunda metade

Está começando a segunda metade da minha vida.

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E eu já comecei a me dar presentes. O primeiro deles foi o show do Ney Matogrosso, perfeitamente intitulado "Inclassificáveis". O cara é definitivamente inclassificável. Seduz todo mundo, homens e mulheres gritam e se emocionam. Rebola, troca e tira a roupa, coloca colares e coisas na cabeça.

Tenho um medo chato de envelhecer, e talvez por isso tenha ido ver o Ney, um cara de quase 70 anos que é lindo, talentoso, gostoso, forte, incrível. Uma pessoa, enfim, fora de série.

Me apaixonei por ele quando eu era criança. Lá em casa o disco dos Secos e Molhados tocava toda hora. Imagina isso, nos anos 70, quatro caras com os rostos pintados e esse ser inclassificável rebolando semi pelado. Em plena ditadura. Falando de lobisomens, bomba de Hiroshima, gatos pretos cruzando a estrada. Apesar da ditadura, os Secos e Molhados tiveram uma entrada democrática em casas das mais diversas classes sociais e tipos de famílias.

É preciso ser muito macho pra ser do jeito que é o Ney Matogrosso. Um puro exemplo de vida vivida intensamente sem ser consumida pela intensidade.

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Hoje tive um sonho muito bonito e religioso. Havia um homem que tinha deixado seu trabalho para viver fazendo peças de mosaico. Uma dessas peças estava no chão, ele tinha botado fora. Era uma saboneteira. Eu peguei do chão e fiquei examinando, e perguntei pra ele porque tinha jogado fora. "Ficou muito grande", ele falou. Eu disse que achava que estava bom, que para mim era do tamanho certo, e perguntei se podia ficar com ela. Continuei examinando a peça, e acho que mordi a cordinha que tinha a função de pendurar a saboneteira na torneira do chuveiro. Com a cabeça baixa, olhando bem para a peça de mosaico que, um tanto velha e malcuidada, meio que se desmanchava na minha frente, entrei numa espécie de transe e oração. E disse que Deus não dá às pessoas nada que seja maior do que aquilo que elas podem morder. E que eu tinha certeza que ele mandaria para mim um pedaço do exato tamanho que coubesse na minha boca.

Era, ao mesmo tempo, uma aceitação profunda do que eu tenho que lidar agora e um pedido para que venha uma nova situação, mais adequada ao que eu quero abocanhar.

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Apesar de não ter vivido como Ney Matogrosso, eu tive uma vida bastante interessante até aqui. Agora, está começando a segunda metade da minha vida: no dia 14 de junho eu faço 40 anos. E eu decidi que vou viver a segunda parte da minha vida de um jeito ainda mais interessante.

Como diz o Ney, "ser novo, pra mim, é algo velho". Eu sempre tive muito medo de ficar velha. Pois agora estou achando que é a melhor coisa que podia me acontecer ;)

 

Admiração...e só!

Gata, parabéns pelo 40 anos! Mas, mais parabéns ainda pelo texto encorajador e pela auto confiança e coragem em encarar que envelhecer pode ser bom demais! Porque eu tenho 27 anos, sei de tudo isso, mas já to com um medinho louco de chegar aos 30!!!! beijos!

Quarentona em!

Ale, Feliz aniversário! Ano que vem eu te alcanço! Eu também estou adorando envelhecer. Acho que isto acontece com as pessoas bem resolvidas ;) Te amo minha quarentona enxuta! hahahaha

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