Baratunde Thurston é um cara realmente engraçado. Além de ser um dos editores do The Onion, é uma geek celebrity. Foi ele que apresentou o Web Awards no SXSW, e também foi um dos 20 que tiveram 2 minutos para responder a questão "What is it going to take?" no 20 x 2 (20 pessoas têm 2 minutos para responder a pergunta do ano; podem fazer o que quiserem, video, música, discurso, ppt etc). O populista Baratunde fez um inflamado discurso acompanhado de um keynote bem simplinho, com apenas umas palavras soltas - e foi escancaradamente aplaudido pela platéia. A pergunta deste ano era uma questão aberta: o que vai ser preciso para... [o que quer que seja que o respondente queira colocar aqui]. A maioria dos convidados do showzinho ficou com temas sociais e digitais - alguns relacionados à crise, outros à coragem de mudar, de ser você mesmo etc.
Em seu discurso que levantou a massa, uma das coisas que Baratunde disse foi: "It's going to take another word for 'friendship', because Facebook killed it".
No dia anterior, eu havia passado uma hora inteira numa sala cheia de gente (gente adulta e séria) discutindo como gerenciar os diferentes níveis de "amizade" em redes sociais, e a intersecção com a amizade na vida física, num painel chamado "Friendship is dead".
Isso é um exemplo de como as questões relacionadas à vida digital são maduras e muito mais complexas do que no Brasil, onde se discute muito a internet do ponto de vista dos negócios e do marketing - e pouco sobre os aspectos de expressão pessoal. Pelo que vi, nos Estados Unidos o profissional e o pessoal estão muito mais conectados. As pessoas não costumam separar muito um do outro. Até porque isso não é mesmo muito fácil. Como diz uma das lições do feminismo, "o pessoal é político". Feminismo, aliás, é um tema que utiliza muito bem a internet. Eu fui a alguns painéis relacionados à expressão feminina online. Um deles, que se chamava "Everything I Needed to Know About the Web I Learned from Feminism", defendeu que as ferramentas da web 2.0 se encaixaram perfeitamente nas necessidades da terceira onda do feminismo (a terceira onda pode ser resumida como o período em que as desigualdades são muito sutis - já temos direitos iguais e parece tudo bem, mas a desigualdade continua nos detalhes). Em outro, intitulado "Why Is Professional Blogging Bloodsport for Women?", foram discutidas maneiras de lidar com a exposição: "For professional female bloggers, writing online can get painfully personal - and so can the criticism. Oversharing, sex-blogging, fameballs, Tumblettes, Jezebelism - why is it (still) so difficult to be a woman online?". As mulheres tendem a se "desnudar" na web. Eu mesma não consigo, e às vezes me culpo por isso, manter os assuntos deste blog apenas na esfera profissional. (Agora desisti de vez. Não consigo separar eu de mim mesma ;) O pessoal é político, so be it!
Conversei um pouco sobre isso com Stacy Jacobs, uma geekgrrl de Chicago que tem uma empresa de marketing e design. Ativista gay, está montando com sua noiva um site sobre o planejamento de casamentos homossexuais. Stacy é o pacote completo: o link que apresenta aos seus clientes é o mesmo que mostra a Stacy pessoa física, many pounds of queerness (ah, e ela também organiza um karaokê para technology workers em Chicago). Ela diz que às vezes fica um pouco preocupada com a exposição de sua vida pessoal - mas que, desde que ficou noiva, seus posts pessoais ficaram muito mais comportados...
Voltando à amizade. Ontem, já no IA Summit em Memphis, participei de um workshop sobre arquitetura de informação em ambientes sociais. A classificação dos meus "amigos" numa rede social foi discutida brevemente, já que isso é uma decisão de design. São os profissionais que planejam o site que vão decidir se as pessoas poderão ser classificadas em mais de um grau de amizade (como no Orkut ou no Flickr) ou se todos os contatos têm o mesmo status numa rede (como no Linkedin ou Twitter).
Mas será que os amigos do Twitter são realmente seus amigos? Eu acredito muito nos relacionamentos digitais. Mas eu sou o tipo de pessoa que custa muito para chamar alguém de amigo. Meu namorado me chama de Elesbão, o que não tem amigos. Eu digo pra ele que 80% do que ele chama de amigos são, na verdade, acquaintances, meros "conhecidos". Até desenvolvi uma graduação pras acquaintances do namorado: acquaintance grau A (quase um amiguinho), grau B (conversa na fila do cafezinho, encontra na noite), acquaintance C (dá oi nas festas). Ele chama todo mundo de amigos, tem por volta de 9 mil deles. Mas não tem nenhum amigo digital.
Eu acredito em relacionamentos digitais, porque acredito em relacionamentos e acredito que não há mais separação entre eu digital e eu físico (não consigo separar eu de mim mesma). "A new way of relation emerges", acabou de dizer aqui Michael Wesch (The machine is using US/ing US), no keynote de abertura do Summit.
E cada um lida com seus relacionamentos do jeito que dita seu estilo de vida. Que está mudando ao mesmo tempo em que mudam as ferramentas.
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