O trabalho é overrated

Eu gosto muito de trabalhar, costumo dizer que o trabalho me salva. Mas, na sociedade em que vivemos, o trabalho é "overrated". A gente atribui um peso muito grande para o trabalho, que acaba nos definindo. Acabamos sendo apenas o fulano "da" empresa x. Será que não somos nada além do ente que trabalha? O que me define na vida é minha profissão, meu cargo, e o quanto eu ganho?

Acho que existem coisas bem mais importantes que o trabalho. Este é meu mantra: "isso não é importante". Serve para quase tudo. Há poucas coisas realmente importantes no mundo. O emprego - principalmente o ruim, que você não gosta - não é importante. Concorrências não são importantes (aliás, que coisa bem bizarra: a gente se mata de trabalhar, faz todo o job antes do cliente pagar, e tem grandes chances de ele não gostar e escolher o concorrente e a gente nunca receber pelo trabalho) - (concorrências seriam mais importantes se eu fosse sócia da agência ou se recebesse uma porcentagem da conta/job conquistado - hello empregadores!).

Na nossa cultura, pega mal querer tempo para viver. Em São Paulo, principalmente, parece que dar a vida pelo trabalho é a medida do quão importante aquela pessoa é. Se isso se refletisse em excelentes salários, seria um pouco mais aceitável ("Eu troco minha vida por um saco de dinheiro todo o mês. Beleza"). Mas, no Brasil, trabalha-se muito e ganha-se pouco. 

Por que as pessoas acham que é bacana se matar de trabalhar, que os melhores profissionais são aqueles que chegam cedo e saem tarde, fazem hora extra sem nem cobrar? Talvez porque é isso que faz o mundo girar. Como diz o Hodgkinson, fomos criados para sermos bons consumidores. O meu problema, por exemplo, é que sou uma maldita consumistinha. Gosto de comer bem, comprar livros, revistas, sapatos e make-up, gosto de tratamentos de beleza e viagens. Por isso, e porque procuro expressão, eu trabalho.

Eu tenho a sorte de gostar do meu trabalho, e procuro não aceitar acordos que não são bons pra mim. Porque gastar os melhores anos da minha vida trancada num escritório 10 horas por dia, 5 dias por semana, não apenas não é importante, como não é justo. O trabalho é uma relação comerial: eu alugo minha capacidade intelectual e me pagam por isso. Capacidade intelectual, veja bem, não está necessariamente vinculada a "tempo com a bunda na cadeira do escritório". Para mim, acordo só é acordo quando é bom para ambos os lados. Por isso, acho que o trabalho precisa ser MUITO BEM remunerado. Eu estou dedicando muitas horas da minha preciosa vida para que o dono de uma empresa ganhe dinheiro. Em troca, ele precisa me repassar um tanto do dinheiro que ganha explorando o meu trabalho - dinheiro suficiente para que eu não sinta que estão me roubando os melhores anos da minha vida. Não quero me vender barato. Mas os amigos sabem que, para ganhar bem sendo dona do meu próprio passe, eu tenho que me virar do avesso...

Essa pensata é tão lógica, que é de espantar que as pessoas não se dêem conta. Nós não nos damos conta. Passamos a vida no automático, com medo de perder o emprego, sem ter coragem de mudar. E quando alguém aparece com essa conversa, parece coisa de louco. Eu mesma fiquei pensando se deveria publicar esse post, se não ia "queimar meu filme" com possíveis empregadores.

Isso me lembra o filme que vi ontem e me impressionou muito: Revolutionary Road (Foi apenas um sonho), do Sam Mendes, o mesmo que dirigiu Beleza Americana. Nele, um casal que tinha planos de levar uma vida interessante e diferente se vê preso a uma vida conformista e "normal" num subúrbio americano. Ele, aguentando um emprego que não gosta, para sustentar a família. Ela, morta de frustração no papel de mãe e esposa. Um dia, resolvem recomeçar a vida em Paris, para experimentar a liberdade de descobrir quem realmente são, independente do que fazem para ganhar a vida. O único personagem do filme que entendeu isso foi justamente o desequilibrado mental, que acabava de sair de uma temporada no hospício.

Triste, o filme é um retrato do que acontece com basicamente todo mundo, pelo menos em certos níveis. Todo mundo acha que vai ter uma vida maravilhosa e cheia de emoção. Na minha geração, por exemplo, todo mundo achava que ia ser rock star... Enquanto o mais provável é que tenhamos empregos mais ou menos, que conservamos para poder ser bons consumidores e assim aplacar a ânsia por viver uma vida um pouco mais do que medíocre.

Love is my only boss
É por isso que ontem decidi que o amor é meu único patrão. O amor, sim, é importante.

*****

Aqui em baixo está o pdf da entrevista do Tom Hodgkinson para a revista Superinteressante, em maio de 2008. Vale a pena a leitura. Contém sérias provocações sobre o trabalho - no meio de algumas bobagens que quase chegam a desacreditar a sua teoria.

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Tom Hodgkinson.pdf636.4 KB

As pessoas esqueceram o que é importante

Isto faz-me lembrar a história dum homem de negócios que vai passar umas férias numa ilha tropical e acaba por ficar amigo dum dos nativos, que é pescador e ele lhe diz: "- Você é pescador, você podia criar uma empresa porque consegue sempre levar peixe pra casa, e assim podia fazer muito dinheiro" O pescador responde: "- O que é que eu fazia com muito dinheiro?" E o outro: "- Podia se reformar e ir um dia passar uns bons tempos e férias numa ilha tropical" "- Então mas não é isso que eu já estou fazendo agora?" - diz o pescador... E eu percebo, as pessoas são muito exigentes, eu quando faço um retrato a alguém, muitas vezes põem críticas em coisas insignificantes.

http://www.youtube.com/watch?

Muito bom. Só falta a coragem

Muito bom o texto, ajuda bem com o que eu penso diariamente no trabalho. Só falta a coragem agora :)

Perfeito.

Estou há anos pensando nisso e há semanas discutindo com amigos mais próximos, sem chegar à conclusão alguma. Obrigada por ter traduzido tudo o que estava bagunçadíssimo na minha cabeça. ;)

Sensacional

Fez uma síntese do que muitos profissionais, principalmente ligados a comunicação e informática vivem. É a vida...

Liberdade

Com as tecnologias de comunicações existente em nossa época eu me pergunto, porque alguém tem que ficar dentro de um escritório? A liberdade conduz a responsabilidade, os trabalhos intelectuais não necessitam de espaço próprio para serem realizados.

Demorou...

Minha amiga, o tema é genial. Mas somente ontem é que você descobriu que o amor, sim, é importante? Corra atrás do prejuízo durante todos os anos de sua vida pretérita... E seja não uma empregada, mas uma escrava do seu patrão - o amor...

Desconforto

Concordo com seu texto, sem ressalvas. Chega a ser desconfortável ler isso e não ter escrito tamanha a empatia. Toda a literatura referente ao assunto tenta nos adestrar a ser proativos, eficientes, ter respostas rápidas, a ocupar nosso tempo ocioso em formas de nos tornar melhores nas tarefas que executamos. Formigas têm mais mérito no trabalho que executam e nos propósitos do mesmo do que nós e nossas corrida por prazos e idéias descabidas e pouco simples que só nos fazem pensar "deve ter algo além disso...". Parabéns pelo texto. Um abraço.

Não é justo!

Via @inagaki li o seu post, só hoje, quase 8 meses depois de escrito - quem disse que a internet é instantânea? :o) Esse assunto está martelando na minha cabeça há meses. Há 6 anos trabalho 10 horas por dia num escritório e ODEIO. Sinto que estou perdendo tempo. Me formei em Letras no ano passado, queria trabalhar como professora, tradutora, qualquer coisa com a qual eu me sinta no meu espaço, gostando do que faço e usando a minha capacidade intelectual de verdade. Tirou as palavras da minha boca, @alenahra. Não é justo, não é importante. Estou com os olhos rasos d'água!!! Obrigada pelo seu post, é uma inspiração para as minhas realizações deste ano. Um grande abraço!

Camus

Tem uma frase do Albert Camus que eu gosto muito e acho que tem a ver com seu ponto de vista "O êxito social só tem sentido numa sociedade na qual acreditamos." Parabéns pelo texto.

otimo

Ótimo texto, também recebi via Twitter e achei maravilhoso. Continue assim escrevendo muitas coisas interessantes ;)

Adorei o texto. Também penso

Adorei o texto. Também penso assim! E realmente admiro quem consegue fazer o próprio horário saindo do convencional e sendo o "próprio patrão".

Precisava desse hoje!

Tive a sorte de receber o link para seu texto via twitter, de uma grande amiga. Baixei o texto e o filme :) acho que precisava de um chacoalhão desses hoje! Obrigado por compartilhar!

adorei o texto, mas dá até

adorei o texto, mas dá até vergonha dizer isso, né? a pessoa que dá menos valor ao trabalho é tida como preguiçosa e mal-sucedida. claro que trabalhar pode ser bom, e é impossível viver sem fazer nada. mas a relação atual dedicação x remuneração é incrivelmente injusta. outro filme legal sobre isso é "a agenda" (l'emploi du temps), já viu? e essa semana eu li sobre a dinamarca, sobre porque esse é considerado o "país mais feliz do mundo". uma das coisas que falava na matéria é que lá quase não existe hierarquia vertical, e que quem trabalha muito ou sai tarde do trabalho é mal-visto e considerado incompetente. outro mundo?

boa descoberta

Descobri seu blogue hoje, pelo tuíter, e já me encantei. Só senti falta de um link RSS para eu assinar via Google Reader. ah! fiz spam desse texto genial. abraços!

Ciclo Vicioso

Eu já pensava muito em tudo que li aqui. Você ainda tem como exigir coisas que compensem essa troca desenfreada do trabalho, eu já não tenho isto, e para conquistar preciso "trabalhar" muito ainda. risos... "trabalhar muito ainda", entende que isto passa a ser um ciclo vicioso? Pedi demissão de um cargo de coordenação de uma empresa que não havia respeito pelo colaborador, era realmente uma escravidão. Só me dei conta que a coisa estava realmente séria quando o empregador começou achar que eu era propriedade dele, assim como o seu carro, sua casa. Acho que trabalhar é necessário, você precisa ocupar a mente com algo que saiba fazer e faça bem. Sou a favor do trabalho, mas sou contra a esta mentalidade fechada dos empregadores de que "estão nos fazendo o favor ao nos empregar". Eu apoio o conceito: emprego = troca Adorei o seu post, e continue assim, cheia de opiniões, este é seu diferencial, mesmo que não agrade a todos!

Muito bom o texto

Muito bom o texto, falastes o que muita gente têm vontade mas, por algum motivo, não consegue externar. Adoro meu trabalho, mas equilibrio é fundamental. Já vai o tempo onde sucesso profissional é igual a chegar cedo e sair tarde do trabalho. Cada vez mais, o conceito de "produtividade" vai se aproximando ao de "qualidade", ao invés do de replicação pura e simples. O fordismo já era, minha gente...

Res: Rufião

"Trabahar muito e não ter tempo pra nada é a medida do sucesso de hoje" Sucesso para você pode não significar a mesma coisa que para outras pessoas. Ser bem sucedido para mim, por exemplo, é ter tempo para desfrutar a convivência das pessoas que amo, a começar pela minha própria.

Vivemos disso

Trabahar muito e não ter tempo pra nada é a medida do sucesso de hoje. Como em algum momento já foi o ócio. O problema é que nós estamos aqui usufruindo do trabalho desenfreado dos outros. Pra vc ter um mamão na sua mesa no cafe da manhã existem muitas pessoas envolvidas, e algumas arriscando a vida em troca de migalhas. Pra gente clicar no interruptor e a luz acender temos milhares de pessoas em milhares de departamentos se esfolando pra fazer tudo funcionar assim. E não queremos menos que isso. Para sermos coerentes precisamos abrir mão de alguns luxos que só este nível de trabalho que não queremos proporciona.

Tens toda a razão

Concordo plenamente com vc que a cultura que vivemo é o fruto do "No pain, No gain". O que é uma infelicidade já que grande parte dos empregadores pensam o mesmo do seus empregados, e até mesmo deles próprios. O que é o pior é que eu não vejo (e nunca ví) uma relação efetiva de tempo vs. efetividade no trabalho. Talvez pq mtas coisas não nos ajudam a ser efetivos e aproveitar o tempo de forma sábia ou talvez pq não faz parte da cultura ou método de trabalho. Viví na suécia por 2 anos e lá eles aprenderam a ser absurdamente efetivos no trabalho, com menos exploração. Quem sabe nós devemos promover uma revolução no nosso método de trabalho e vida. Só como dica, leia o livro "The 80/20 Principle by Koch, Richard". Ele tem um aproach interessante de como melhorar a efetividade no trabalho através de uma mudança de estratégias...

Fazia tempo que um post na

Fazia tempo que um post na meu fazia taça bem

teste

tem moderação aqui?

pós moderação

Oi Dani. Tem pós-moderação ;)
Legal seu comentário. Gostei principalmente da observação de que estamos nos deixando levar "por uma onda de escravidão (mal) remunerada". É isso mesmo. Impressionante como a gente não se dá conta. E quando começamos a questionar, muitas vezes nos sentimos culpados...

 

Mudança

Recebi seu texto através de um amigo no twitter, justamente porque eu estava questionando, lá no twitter, essa loucura toda pelo trabalho. Eu não acho legal ser workahollic, acho looser. Há tantas coisas mais importantes na vida... aí uma pessoa respondeu @danielafeoli mas eu sou apaixonada pelo meu trabalho. Respondi na hora @fulana apaixone-se por outras coisas. Na minha humilde opinião, estamos nos deixando levar por uma onda de escravidão (mal) remunerada. Mas antes de tudo escravidão. Quando vc não se sente a vontade para sair às sete horas da noite por que seu horário é esse, caraca, vc é um escravo, não um colaborador. Esse foi o principal motivo da minha troca de cidade: deixei SP e vim morar no Rio. Realmente são culturas diferentes. Em SP há uma apologia ao workahollismo, aqui há uma apologia ao "vamos pra praia", "bora tomar um chop logo, amanhã vc termina"... dentro do possível, é claro. Beijos, adorei o texto. Era tudo o que eu queria dizer.

alezinha, essa é minha

alezinha, essa é minha primeira visita ao blog, como pode?! será que estou trabalhando demais, rsss? adorei os posts. vamos colocar essas ideias em prática e nos encontrar mais vezes. ou andas trabalhado muito no final de semana, rss? bjs saudosos

Disse tudo.

E o pior é que eu já tinha dito isso tudo para um monte de gente. É muito engraçado ver as caras de "putz, como eu nunca pensei nisso?" sempre que se toca nesse assunto.

www.zeitgeistmovie.com

Depois desses dois filmes eu consegui pensar melhor sobre tudo o que acontece, e através deles também conheci o trabalho de Bill Hicks e George Carlin, dois "stand-up" políticos gêniais. Abraços!

www.zeitgeistmovie.com

Depois desses dois documentarios que eu consegui pensar dessa forma. Belo texto! Abraços!

Ale, eu não queimei meu filme

Ale, eu não queimei meu filme com ninguém (até mamãe parece que aceitou), mas dei um tempo dessa roda gigante em alta rotação que é viver o dia todo e todo dia trabalhando, até no fim de semana. Chega uma hora que a gente vê tudo embaçado... a vida fica desfocada. Enfim, agora já dei o tempo, e volto aos poucos ao mundo "real". Feliz.

Genail

Ale, sempre com excelentes posts. Posso até dizer que um dia eu chutei tudo pro alto, e claro, tudo tem suas conseqüências...rs...mas hoje, até me divirto, mas esta longe daquele meu sonho de viver com mergulho em praias paradisíacas, tirando foto da natureza que pedi a Deus....rsrsrs [],s Ale o/ ps.: ta devendo a data e local do happy ¬¬

Adorei!

Tto esse post como o primeiro, é um assunto que sempre me incomodou. É exatamente como eu penso e costumo agir. As pessoas tem q perder o medo de serem chamadas de "vagabundas" e sentir culpa por não fazer nada (ou fazer, depende do contexto). Eu costumo dizer q pra mim ser produtivo não preciso mais do q 5 ou 6 horas intercaladas em dia sim e dia não, rs. Adoro ficar em casa, dormir tarde (olha a hora q estou comentando, rs, logo logo serão 6h), principalmente nas segundas, quartas e sextas, além dos finais de semana, rs. Ainda não tenho toda essa sorte, mas estou "trabalhando" pra isso, rs, afinal, qro continuar a ter meu parco dinheirinho com a possibilidade de dar um rolê na galeria do rock na segunda-feira a tarde (é o melhor dia pra ir lá!). Fique tranquila q você não é a única e arrumo uma briga sempre na casa de meus pais q querem q meu irmão de 17 anos arrume um trabalho, veja só esses 'velhos'. Abçs Alê.

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