AI é profissional estratégico - notas sobre o EBAI 2008

O EBAI - Encontro Brasileiro de Arquitetura de Informação é uma oportunidade de conversar sobre os assuntos que só a gente gosta. É sempre bom ver que a comunidade está crescendo, e sempre bom encontrar o povo, uma chance rara. Pra mim é especialmente proveitoso, já que trabalho ou sozinha ou na Salve, uma agência pequena que ainda não conta com uma equipe de UX/AI.

Parabéns a Carol e ao Guilhermo pela organização do EBAI deste ano, que foi tão legal quanto o primeiro. Parabéns a Jump pela produção e agradecimentos especiais aos patrocinadores, UOL e Try.

Eu acho que quem não ajuda não tem o direito de criticar, e por isso não vou ficar reclamando de nada. Tava tudo muito bom, mesmo. Mas cheguei ao fim do evento pensando que queria ter visto apresentações diferentes - mais prática e menos teoria, coisas pra gente usar no dia-a-dia, assim como tem no IA Summit. Por que ainda não tem muito disso no EBAI? Na minha opinião, é porque a profissão no Brasil ainda não está madura; ainda não há produção de conhecimento especializado, as discussões ainda não são profundas. Ou seja, ainda não é produzido um sólido corpo de conhecimento a partir dos nossos temas de trabalho. E não acho que isso vai acontecer através apenas da pesquisa acadêmica (vide parágrafo abaixo). Mas vamos aos poucos chegar lá, e o EBAI certamente é um passo nessa direção. Parabéns de novo, e obrigada!

As apresentações se dividiram entre estudos de caso e discussões conceituais. Particularmente, eu achei as discussões conceituais, quase sempre ligadas à pesquisa acadêmica, teóricas demais, ou quantitativas demais - em resumo, longe da realidade diária e, em outras palavras, chatas. A pesquisa do Guilhermo (essa sim bem útil) apontou que há mais homens que mulheres envolvidos em pesquisa acadêmica, e conclamou as mulheres a trilharem este caminho. Bem, podem me chamar de herege, mas, se depender de mim, vai continuar assim. Não tenho paciência para o excesso de teoria, números e estatísticas que provam o óbvio. Talvez isso seja comum entre profissionais que aprenderam AI na prática, e é claro que acho super válido que haja gente se dedicando à pesquisa acadêmica - mas não vai ser eu. A única pesquisa acadêmica apresentada que achei bacana foi a visualização dos resultados do Yahoo em nuvens de texto, que tem um foco claro e específico, a construção de um aplicativo bem interessante.

O trabalho do Guilhermo também mostrou que a fase de pesquisa em projetos de AI é geralmente abreviada ou inexistente. Este, para mim, foi o tema mais importante discutido no EBAI. Várias pessoas bateram nesta tecla: Philip Rodhes disse não conseguir entender como é possível projetar sem entender o usuário; Iris Coldibelli e Gil Barros insistiram no assunto durante o open mic. Em um dos coffee breaks, eu conversei sobre isso com a Iris e o Alício, e comentávamos uma das últimas discussões na lista de e-mails - sobre os salários. Iris, que anda entrevistando muitos AIs para vagas na sua agência, disse que, quando pergunta a eles o que pensam em fazer, onde querem estar em alguns anos, geralmente o povo não sabe - 'como assim, tem mais pra fazer além de wireframes?' Haha. E chegamos à conclusão de que, se o cara é apenas um "fazedor de wireframe", salário de 2, 3 mil está mais do que bom. "Pra fazer caixinha não precisa de muito", disse o Gil, que completou: "Os arquitetos não podem aceitar fazer AI a partir do briefing, porque isso não é AI".

Eu acho MEGA difícil planejar AI e interações se não tenho embasamento de pesquisa - e não apenas com usuários, mas entrevistas com stakeholders, conhecimento da estratégia da empresa, modelo de negócio, mercado do segmento. Como já comentei aqui neste outro post, a necessidade da pesquisa é óbvia - até o Jared Spool acha difícil fazer uma interface sem embasamento. Imagina nós, simples mortais. Pra mim, isso não existe. Até posso fazer um hotsite rápido ou uma landing page simplinha a partir de um briefing - mas, para mais do que isso, só o briefing é o mesmo que não ter nada. Tenho a sorte de trabalhar numa agência que me deixa fazer do meu jeito, inclusive palpitando no cronograma. Na maioria das vezes, encontro o cliente já na primeira reunião, e meu primeiro entregável é o planejamento do projeto, com uma boa e gorda fase de pesquisa. O cliente, na maioria das vezes, vê valor naquilo, e entende que o dinheiro dele será melhor empregado desta maneira.

E é isso. Vamos continuar o trabalho e tentar colaborar para a maturidade da nossa profissão no Brasil. Pra isso, temos que ser um pouco educadores de clientes - e de agências ;)

 

Pesquisa com usuários e pesquisa com clientes

Alenahra, nos conhecemos rapidamente no EBAI. :) Pelo que entendi, Ale, vc mesclou a fase de pesquisa com usuários e com o cliente numa mesma fase. Tanto Philiph Rhodes, qto o Gil, questionaram a pesquisa junto ao usuário, que é ignorada pelos AIs nacionais. Conversar com o cliente faz parte de qq planejamento, e se já acho difícil compreender como fazer AI sem entrevistas e testes, imagina sem reuniões com os clientes? Existe esse profissional, gente? E acredito que os problemas de AI vão além da falta de embasamento. Falta embasamento teórico, falta foco na taxonomia e na elaboração de vocabulários controlados. Vejo muitos preocupados demais com a interação e de menos com a rotulação e recuperação da informação aka encontrabilidade.

usuários e clientes

Oi Letícia! É, eu não acho que a pesquisa tem que ser só com o usuário, não. Defendo uma fase de pesquisa longa, com um mergulho na empresa, em busca do alinhamento com a estratégia - explorei isso (junto com Jared Spool, hehe) neste outro post. Infelizmente eu acho que isso não é muito comum no dia a dia de agências que trabalham com apenas um documento: o briefing. Como eu vim de intranets e portais corporativos, muitas vezes encontrei o usuário dentro da própria empresa, o que sem dúvida facilita muito. Concordo com você que falta embasamento teórico, mas eu acho que isso, além do problema de falta de formação em AI no Brasil, também tem relação com as várias facetas de atuação de AIs. Tem gente que vem do design e tende para o desenho das interações. Já quem vem da ciência da informação geralmente não tem familiaridade com design de interação. Eu, que venho do jornalismo, gosto de sair entrevistando... Não acho que todo mundo tem que fazer tudo, e acho que com o amadurecimento do mercado, vamos ver equipes de arquitetura e design de interação formadas por pessoas com especialidades variadas, que se complementam. Um dia, quem sabe... Obrigada pela visita ;)

Muito bom....

Parabéns Ale. Concordo 100% O problema é que as pessoas esquecem que a pesquisa revela pontos que não percebemos e que estamos viciados. É comum começar uma AI, fazer um wireframe sem pesquisar por pensar (ou por preguiça) que já se sabe como fazer, caindo assim na mesmice cotidiana que impedi a evolução estrutural e intuitiva para o usuário. Cada público é único, assim deve ser a criação, é necessário conhecer com o que se está lidando para tirar o melhor proveito possível.

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