June 2009

  1. Definindo fronteiras

    Um post rápido só para comentar um assunto que surgiu esses dias na lista e provocou certa polêmica (que não pretendo incentivar). Se não me falha a memória, alguém disse que arquitetura de informação e design de interação eram coisas bem diferentes, e que, no mercado, só temos que fazer as duas juntas por desinformação ou por falta de profissionais qualificados. Acho que foi isso, mas nem estou bem certa. Na verdade, esse é um assunto antigo, que inflama o povo, tem a ver com little IA x big IA, se discute isso em todos os eventos, etc. E tem relação com a mania da gente de querer categorizar, rotular, e finalmente definir "the damn thing".

    Depois da discussão na lista, o Fred lançou um twit dizendo que só "newbies" acham que AI e design de interação são a mesma coisa (eu vi, eu vi ;)

    Não compartilho com ele esta opinião afiada, mas o certo é que a mistura é provocada por muita desinformação (o que, infelizmente, é uma característica do mercado de AI brasileiro). Eu sempre achei que eram coisas bem diferentes, e tenho dito que, numa equipe ideal e num mercado maduro, existiria um profissional para cada coisa. E que a gente aqui no Brasil faz tudo junto porque já é difícil que se contrate um cara de UX, imagine mais de um. E porque aqui ainda acham que arquitetura de informação é fazer wireframes - na verdade, agora é "mexer no Axure e fazer protótipo". Eu sempre sofri com isso - porque sou muito melhor como arquiteta de informação do que como designer de interação ou como "planejadora de interface". Hoje em dia, quando me vejo rabiscando página para ser montada no Axure, fico me perguntando how the hell eu acabei fazendo isso - que na faculdade a gente aprende a chamar de diagramação, e que não é feito por jornalistas, e sim por designers gráficos. Tem gente que faria isso muito melhor do que eu. Acabei aprendendo alguma coisa porque para ser AI tenho que fazer isso também, mas não tenho a menor familiaridade com o processo que define se esta caixa fica melhor na direita ou na esquerda da página e etc. Jornalista edita, gente da arte diagrama.

    Bem, mas toda essa falação é pra dizer que daí, ontem, lendo o blog do Rogério Pereira, ele falou sobre a entrevista que o Gil Barros (com quem atualmente divido a bancada na Try alguns dias por semana) deu pro Luli, para o JumpCast. Na entrevista, o Gil falou das diferenças entre a arquitetura de informação, design de navegação e design de informação. Segundo o relato do Rogério, Gil explicou que "arquitetura de informação é o trabalho de categorizar e organizar as informações de uma maneira que faça sentido para o usuário" (é isso que eu sei e quero fazer!!!). O "design de navegação é como o usuário irá navegar por esses ambientes. E o design de informação é a etapa onde o profissional se preocupa em apresentar a informação de uma forma simples, compreensível e agradável".

    Design de informação seria o que eu chamei ali em cima, de maneira muito simplificada, de diagramação e "rabisco de página". E vejam que o Gil nem sequer falou de design de interação: ficou com "design de navegação". Isso pra mim faz muito sentido. E certamente deve fazer o Fred feliz. Cada um com cada qual. E o design de interação realmente é um mundo muito mais vasto do que a navegação em ambientes digitais.

    Agora posso voltar a fazer AI, please?

     

  2. A segunda metade

    Está começando a segunda metade da minha vida.

    ***
    E eu já comecei a me dar presentes. O primeiro deles foi o show do Ney Matogrosso, perfeitamente intitulado "Inclassificáveis". O cara é definitivamente inclassificável. Seduz todo mundo, homens e mulheres gritam e se emocionam. Rebola, troca e tira a roupa, coloca colares e coisas na cabeça.

    Tenho um medo chato de envelhecer, e talvez por isso tenha ido ver o Ney, um cara de quase 70 anos que é lindo, talentoso, gostoso, forte, incrível. Uma pessoa, enfim, fora de série.

    Me apaixonei por ele quando eu era criança. Lá em casa o disco dos Secos e Molhados tocava toda hora. Imagina isso, nos anos 70, quatro caras com os rostos pintados e esse ser inclassificável rebolando semi pelado. Em plena ditadura. Falando de lobisomens, bomba de Hiroshima, gatos pretos cruzando a estrada. Apesar da ditadura, os Secos e Molhados tiveram uma entrada democrática em casas das mais diversas classes sociais e tipos de famílias.

    É preciso ser muito macho pra ser do jeito que é o Ney Matogrosso. Um puro exemplo de vida vivida intensamente sem ser consumida pela intensidade.

    ***

    Hoje tive um sonho muito bonito e religioso. Havia um homem que tinha deixado seu trabalho para viver fazendo peças de mosaico. Uma dessas peças estava no chão, ele tinha botado fora. Era uma saboneteira. Eu peguei do chão e fiquei examinando, e perguntei pra ele porque tinha jogado fora. "Ficou muito grande", ele falou. Eu disse que achava que estava bom, que para mim era do tamanho certo, e perguntei se podia ficar com ela. Continuei examinando a peça, e acho que mordi a cordinha que tinha a função de pendurar a saboneteira na torneira do chuveiro. Com a cabeça baixa, olhando bem para a peça de mosaico que, um tanto velha e malcuidada, meio que se desmanchava na minha frente, entrei numa espécie de transe e oração. E disse que Deus não dá às pessoas nada que seja maior do que aquilo que elas podem morder. E que eu tinha certeza que ele mandaria para mim um pedaço do exato tamanho que coubesse na minha boca.

    Era, ao mesmo tempo, uma aceitação profunda do que eu tenho que lidar agora e um pedido para que venha uma nova situação, mais adequada ao que eu quero abocanhar.

    ***
    Apesar de não ter vivido como Ney Matogrosso, eu tive uma vida bastante interessante até aqui. Agora, está começando a segunda metade da minha vida: no dia 14 de junho eu faço 40 anos. E eu decidi que vou viver a segunda parte da minha vida de um jeito ainda mais interessante.

    Como diz o Ney, "ser novo, pra mim, é algo velho". Eu sempre tive muito medo de ficar velha. Pois agora estou achando que é a melhor coisa que podia me acontecer ;)